Acordei cedo e já sentia o cheiro do café que minha mãe estava preparando. Amanheceu um dia cinzento. Ventava muito, chuva e frio. Ao fundo uma música gaúcha a todo volume. Era 20 de setembro de 2006. As pessoas estavam festejando o feriado da Revolução Farroupilha.
Minha mãe, que morava em Porto Alegre, estava passando um tempo em minha casa. Ela dividiu comigo a espera de um telefonema. Faziam três dias que esperava para partir para minha viagem. Um grande amigo, Cesar Gregoletto, me passou o contato de um caminhoneiro. Pegaria uma carona. Sem saber ao certo pra onde. Naquela manhã torcia para que o telefone não tocasse. Estava ansioso para começar a viagem que há tanto tempo vinha planejando. Mas lá no fundo começava a ficar triste de deixar minha vida para trás. A ansiedade já dava lugar ao medo do que viria pela frente.
Encontrava-me em um momento da minha vida onde precisava parar com tudo e repensar muitas coisas. Pensava se era aquele caminho que realmente queria pra mim. Me olhava no espelho da vida e não enxergava mais o André autêntico. Estava aprendendo muitas coisas com meus erros, meus acidentes e doenças. Isso mostrava que não era aquele caminho que gostaria de seguir.
Perto das 10hs toca o telefone. Aquela ligação que esperava há três dias finalmente chegou. Do outro lado do telefone uma voz completamente desconhecida, falava em um local e hora para o nosso encontro. Desliguei o telefone e olhei para minha mãe. Notei as lágrimas tomando conta dos seus olhos. Ela me perguntou se havia chegado à hora. Respondi que sim. Em meia hora devia estar no local marcado para começar a viagem.
Peguei minhas duas mochilas e coloquei nas costas. Levava algumas roupas, material de higiene, uma barraca pequena, um saco de dormir e um pouco de comida.
Me despedi da minha mãe com um longo abraço. Uma mistura de tristeza, esperança e saudade. Meus cachorros que sempre me cercavam quando saia de casa, desta vez ficaram longe. Pareciam tentar entender o que era aquela tralha que carregava. Meus primeiros passos depois do portão foram com uma certa insegurança. Parecia que já pisava fora das fronteiras do meu mundo.
Tinha que me apressar, pois tinha pouco tempo para encontrar minha condução. Quando cheguei a um descampado, ao lado da rodovia da Rota do Sol, avistei um caminhão vermelho. Seu carregamento ultrapassava a cabine em altura e a carga completamente coberta por uma lona também vermelha. Quando me aproximei o motorista desceu do veículo e veio ao meu encontro. Nos apresentamos. Ele ficou espantado com a minha resposta à sua pergunta de onde era meu destino. Falei que não sabia e que dependia da rota e do destino dele. Entramos na boleia calados e partimos.
Após, mais ou menos, umas oito horas de viagem, enquanto o asfalto corria abaixo de nós, um pensamento veio a minha cabeça. Foi quando peguei a caneta e o papel e escrevi as primeiras frases. Já mostrando um certo objetivo a alcançar.
Olhando o espelho retrovisor do caminhão, vejo meu passado cada vez mais distante.
Deixo todas minhas escolhas pra trás.
Olho pra frente e vejo a incerteza do futuro.
Uma tranquilidade em meio a uma tempestade.
Estou perdido e no escuro.
Mas pretendo encontrar o caminho da luz.
Que me cegue com a claridade da minha essência.
Então assim começou a jornada.
Meio perdido e sem rumo.

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