Depois de ficarmos parados por cerca de 12 horas, o motorista precisava compensar o tempo perdido viajando direto sem parar na noite que se seguiu.
Ao chegar na fronteira entre Paraná e Mato Grosso do Sul, nos deparamos com uma travessia de balsa. Em função do tráfego intenso de caminhões na região, perdemos mais 4 horas para ir de uma margem a outra. Tomamos o último lugar na fila da balsa por volta das 22hs.
Fazia muito calor. A umidade era alta, dando uma sensação de sufocamento. Não soprava nem uma pequena brisa. Resolvi descer da boléia. Achei um bom encosto em baixo de uma árvore próxima ao rio. Quando a balsa se afastava da margem, o silêncio tomava conta. O céu estava estrelado. Aproveitei para escrever um pouco e tentar tomar consciência do momento.
Tenho a sensação de que a natureza foi dormir.
Totalmente consciente do momento presente.
Seguindo seus instintos e nada mais.
Espontânea e sem esforços.
Seguindo o fluxo universal da vida.
Respeitando o ritmo da existência
Sem pressa.
Paciente.
No momento certo.
Uma música silenciosa.
Estava tendo a oportunidade de mudar a minha vida. Mudar o modo como vivia. Sair da rotina de costume. Da rotina ao qual eu me impus. Vivia totalmente no piloto automático. Fazendo sempre as mesmas coisas que não gostava. E depois coisas que compensavam as coisas que não gostava de fazer. Estava nessa montanha russa de sentimentos, onde machucava a mim e as pessoas ao meu redor.
Essa consciência que estava despertando era o que precisava em minha vida. No dia a dia. Que me levasse a me conhecer melhor. Uma vida mais natural. Mais integrada com o universo. Espontânea, sem esforço e no meu ritmo.
Os pensamentos foram interrompidos pela busina do caminhão me chamando para entrar na balsa. Foram cerca de 20 minutos de travessia e mais algumas horas para chegar em Dourados.
Chegamos na cidade de madrugada. Na boléia o silencio pelo cansaço só foi quebrado pelas minhas palavras. Virei para o Jurandir e falei que estava profundamente agradecido pela paciência, pela ajuda e pela nova amizade. Estava decidido a seguir o caminho de outro modo.
Ele ficou preocupado. Me passou algumas dicas da região e me deu um pequeno papel, dizendo:
- Não esqueça de ler isso sempre que se sentir sozinho ou com medo.
Se despediu e desejou boa sorte para encontrar meu caminho.
Com um nó na garganta me despedi. Fiquei ali parado por algum tempo com o papel na mão. Quase chorei com seu gesto simples e sincero. Quando não conseguia mais ver as luzes do caminhão eu li as palavras que viajavam com ele e que agora estavam comigo.
Oração do Viajante
Viajo guiado por Deus.
Em todos os momentos,
envio diante de mim os
meus mensageiros chamados
amor, paz, harmonia e ação correta.
Para tornarem meu caminho reto,
belo, aprazível e feliz.
Sabendo que com meus olhos fitos em Deus,
não haverá mal à minha passagem.
Essas palavras me ajudaram em muitos momentos da minha viagem.


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